Vida que te quero viva... (histórias da minha vida)
Há alguns anos, conheci uma nova comunidade onde fui trabalhar...
As crianças não pareciam acalentar sonhos normais para a idade deles. A realidade social não era propriamente um ambiente estimulador...mas como em todo lugar encontrei crianças felizes também. Outras, nem tanto.
MORADIA DO LOCAL...

Como sonhariam com uma vida melhor se não conheciam nada? Alguns nunca tinham visto um edifício porque nunca saíram do bairro...O único exemplo de moradia ali eram barracos, maiores ou menores...
Como poderiam se sair bem com livros se não tinham acesso a informações? A escola era a referência e o melhor local para fazer as coisas acontecerem.

Comecei um projeto para 'encher' a vida deles de música... Contei com a valiosa ajuda das professoras da escola, (especialmente Márcia, Veleda e Vívian) e de um professor do conservatório local (prof Olavo), que dedicava seu dia de folga para colaborar com o grupo, avaliando e classificando as vozes... A esposa dele, dava aulas de pintura em tecido para as mães das crianças, ao som de Mozart.
Um sonho não é? Mas real!
Lembro o dia em que entrou na favela o ônibus de viagem contratado pela prefeitura para transportá-los à cidade vizinha para uma apresentação. As pessoas foram acompanhando o ônibus e acenando pra nós...Eles tornaram-se um orgulho pra comunidade e certeza pra mim, de que a vida deles nunca mais seria a mesma! Fazíamos a leitura e interpretação da letra de cada música, bem como o estudo da época e o contexto no qual havia sido escrita para que soubessem exatamente o que cantavam.
E O RESULTADO D0 TRABALHO...

Quando saíamos da cidade para apresentações, era a descoberta do mundo... Não pela distância percorrida mas pela vivência e a postura que isso proporcionava e exigia deles.
Além da música, recebiam noções de boas maneiras, postura e dicção.

Grupo em frente ao paço municipal
Da esquerda para a direita, a quarta agachada na frente, Priscila, uma das mais novas e que descobri ser uma soprano maravilhosa. Todo talento só fazia contrastar ainda mais a simplicidade de quem chegava para os ensaios usando só a metade de um chinelo de borracha...
Ela solava algumas músicas do grupo e chegou a ser elogiada pelo então Ministro da Educação Paulo Renato, quando na inauguração de uma escola onde foram convidados a se apresentar.
Contei também com a ajuda de mães que eram tão importantes quanto as músicas que escolhia com eles para nosso repertório. Mães que preparavam o lanche aos sábados, quando fazíamos os ensaios mais longos, outras costuravam, havia as que lavavam também...Além de professores que ajudaram a arrecadar verbas para podermos comprar tudo, do tecido aos calçados e meias. Esforço de alguns, ganhos de todos!
Posso afirmar que era o desejo da maioria compor esse time e eles eram a minha bandeira pra atrair os olhares dos pequenos em outra direção...
A de que era possível sonhar! E que Esperança, não era só o nome do bairro em que moravam.
Christin@
