Olhos de poeta mesmo...

Dia desses comentava com uma amiga o quanto a vida  pode mudar dependendo do olhar que se tem, do foco, de poder despir-se das prioridades impostas por modismos ou pela mídia.

Tenho olhado com olhos de poeta para as atividades mais corriqueiras e confesso, estou amando muito tudo isso. Difícil é explicar para algumas pessoas, que devem pensar de mim o mesmo que eu, delas : 'coitadinhas!...rs

 

(foto do bacalhau que fiz na terça feira)

Depois, encontrei esse texto do Rubem Alves que amei e resolvi publicar junto...

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões _é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".


A complicada arte de ver, de Rubem Alves.

 

Ô sofrimento...rs

 

É ou não é um poema? Poesia com sabores e aromas, rs...

Christin@